Futebol da UnB enfrenta seu maior desafio

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 Por Cristiano Hoppe Navarro

15 equipes das cinco regiões do Brasil, 350 atletas e seis dias de competição. Essa é a LDU de Futebol 2016, o campeonato brasileiro universitário da modalidade e mais importante competição do ano para a equipe da UnB, que enfrenta 800 km de estrada até o local dos jogos, Palmas, a capital do Tocantins. Três partidas já estão agendadas para a equipe verde, azul e branca, que caiu no Grupo C e estará utilizando novo uniforme (na foto).

 

 

 

 

 

 

 

 

Na segunda-feira às 8h a estreia é contra a UNIVERSO de Goiás, no Estádio Nilton Santos. Na terça às 10h a partida ocorre contra a UNAMA do Pará no campo da Universidade Federal do Tocantins. O último jogo da primeira fase é às 17h30 de quarta contra a UFU de Uberlândia-MG novamente no estádio. Se depender dos esforços dos atletas e da preparação capitaneada pelo treinador Hugo Almeida (foto), que concedeu a entrevista a seguir, isso será só o começo, uma vez que a fase final só se encerra com a grande decisão na manhã de sábado.

 


ENTREVISTA: HUGO ALMEIDA

Você não esperava tornar-se treinador da equipe de futebol da UnB e já disse que isso pode ter mudado o rumo da sua carreira. De que forma você chegou a treinador e o que espera do futuro na área de esporte?

O antigo treinador (Marcos Ailton), quando assumiu a equipe, me convidou para ficar responsável pela preparação física e auxiliá-lo na gestão técnica da equipe, desta forma eu segui sendo atleta do time e quando necessário eu ministrava os treinamentos do time. Em junho deste ano Marcos Ailton foi para os Estados Unidos a trabalho, e a equipe precisava de alguém que assumisse o cargo de treinador do clube, caso contrário a equipe de futebol poderia acabar. O mesmo me designou a função de treinador junto ao Carlão (da DEA) e eu prontamente aceitei o desafio, e abracei a causa com unhas e dentes, e agora estou encarregado deste cargo que me deixou apaixonado à "primeira vista" e tem me feito bastante feliz e satisfeito nos últimos meses. Em todos os anos de graduação em Educação Física eu nunca tinha me imaginado trabalhando com esporte, e muito menos sendo técnico de equipe alguma. Quando larguei o esporte profissional (futebol, em 2012) disse para mim mesmo que não me envolveria mais com o mesmo, e desde então descartava todas as possibilidades de trabalhar na área. Quis Deus que essa oportunidade me aparecesse logo agora, restando 1 semestre para me formar em Educação Física na UnB, e me abrisse os olhos para a área e para o meu futuro profissional. Me vejo fazendo um bom trabalho a frente da equipe e consigo enxergar um futuro grandioso para mim no esporte graças a dedicação, o estudo e a força de vontade que venho tendo desde então.

Alguns atletas comentaram que você é um treinador mais próximo do elenco. Como o fato de ter apenas 22 anos e estar participando da equipe como atleta até recentemente influencia na sua relação com o grupo?

O fato de ter basicamente a mesma idade de meus atletas e ter tido proximidade com os mesmos na época em que fui atleta da equipe faz com que eu me ponha no lugar de todos eles antes de tomar cada decisão, visto que o fator idade permite com que eu tenha, ao menos em partes, uma linha de raciocínio semelhante a deles. O fato de escutá-los bastante também permite essa proximidade com eles. Outro fator que facilita bastante essa relação treinador/atleta é a minha característica pessoal de ser uma pessoa bastante sociável, com certa facilidade de fazer amizades e criar relações de confiança. Antes de ser treinador deles eu sou amigo, devido à relação que tinha com todos na época em que era atleta e visto a relação extracampo que tenho com todos, facilitando a relação treinador e atleta com toda a equipe e fazendo com que eu tenha a confiança de todos frente ao trabalho que venho realizando com eles.

Uma das características da equipe no momento é a presença de um número elevado de pessoas ajudando na comissão técnica. O que cada uma dessas pessoas acrescentou à equipe e como tem sido a troca de informações?

Os membros que formam minha comissão técnica são pessoas de minha confiança, escolhidas a dedo e de excelência no que fazem. O Wagner Silva (preparador físico) é uma referência na preparação física de atletas de alto rendimento e é um profissional bastante dedicado e atualizado, vem sendo peça fundamental na minha comissão devido ao trabalho de preparação que vem fazendo com meus atletas, que em breve dará muitos frutos, graças ao seu empenho.

O Cyro Macedo (auxiliar técnico) é uma pessoa excelente na gestão de pessoas e na organização de projetos. Demonstra seriedade em tudo que faz e não faz diferente frente ao Clube Desportivo Futebol UnB. É sem sombra de dúvidas uma pessoa fundamental em minha comissão técnica. O Talyson Bruno (auxiliar técnico) é uma pessoa entendida com relação ao futebol, bastante dedicada e empenhada em aprender, cumpre com excelência todas as tarefas designadas a ele, e seu senso de justiça me ajuda e orienta a tomar as melhores e mais fundamentadas decisões nos momentos cruciais para a equipe. Com certeza foi uma escolha bastante acertada por mim.

O Roberto Rodrigues (preparador de goleiros) tem bastante "bagagem" no futebol. Além de ter feito parte da equipe em anos anteriores, suas experiências de vida transmitidas aos goleiros e a toda a equipe tranquilizam e encorajam a todos na hora do trabalho. Além do excelente trabalho que vem fazendo na preparação dos goleiros o mesmo "joga pra cima" a equipe, com relação ao astral e ânimo, graças ao seu bom humor e autoconfiança. Vale ressaltar que todos vêm fazendo esse belíssimo trabalho voluntariamente, visto que o clube não tem condiição nenhuma de pagar por seus serviços, e mesmo assim eles oferecem o melhor de si em prol da equipe. Ao meu ver, merecem o melhor em suas vidas e suas carreiras profissionais.

O planejamento da parte física foi feito para que a equipe chegasse no seu principal objetivo, que é o Campeonato Brasileiro Universitário, no seu auge. Como se diz no jargão, "a equipe está voando"? O quanto você avalia que a parte física é decisiva em definir um resultado no futebol de hoje, em nível universitário?

Bom, ao meu ver a equipe "está voando" sim, todo planejamento feito pelo Wagner e por mim com relação a preparação física, mesmo com apenas 2 meses de trabalho, geraram os efeitos e benefícios esperados por nós e vejo a equipe como um todo bem preparada fisicamente em todos os aspectos. O bom rendimento de cada um dos atletas e da equipe como um todo dentro de campo se deve muito a essa preocupação nossa e a boa preparação física feita por nós. Vira e mexe vemos um ou outro atleta nos elogiando e se sentindo satisfeito com o trabalho físico realizado por verem os benefícios práticos dos estímulos realizados em seu desempenho dentro de campo, e isso não tem preço.

Se tem um ponto em que estamos bem preparados é a parte física, e com certeza será o nosso ponto forte e diferencial no Brasileiro Universitário, visto as condições climáticas do local da competição (Palmas/TO), e também pela intensidade de cada jogo em nível universitário. A parte física, ao meu ver, é imprescindível e decide muitos jogos não só em nível universitário, mas também em todos os níveis, pois é ela quem garante que uma equipe ofereça o seu melhor tecnicamente e taticamente dentro de um plano de jogo durante mais tempo e é ela quem define a intensidade de uma equipe durante um jogo. Em outras palavras, uma equipe bem preparada conseguirá preservar o padrão técnico e tático aplicado pelo técnico durante mais tempo em relação a outras.

Uma equipe bem preparada consegue dominar o jogo somente pelo ritmo mais ou menos intenso dado e aplicado ao jogo graças a essa preparação, e uma boa preparação física permite que os atletas possam oferecer o seu melhor tecnicamente durante mais tempo e de maneira mais "eficaz" de acordo com essa preparação. A preparação física é fundamental para o futebol!

Além de buscar patrocínios e melhorias extracampo, você tem se esforçado para oferecer mais treinos aos atletas. Nas férias, foram três por semana. Agora, no segundo semestre letivo, foram adicionados dois treinos noturnos aos dois que ocorriam de tarde. A equipe tem conseguido treinar completa? O espaço físico tem sido uma dificuldade? Como tem sido o planejamento dos treinos?

 

Eu venho me desdobrando, dia e noite, para poder oferecer mais sessões de treinos para a equipe, e por consequência deixá-la o mais preparada possível em aspectos físicos, técnicos e táticos. Graças a essa medida, de abrir treinos também no período da noite e em dias alternativos, a equipe tem conseguido treinar completa ao longo desses meses de trabalho. Apesar das imensas dificuldades que temos com relação a campo (não temos mais campos para treinar dentro da Universidade de Brasília, o perdemos para as aulas de práticas desportivas e aulas de Frisbee: utilizamos metade do campo graças a bondade e solidariedade do professor Felipe Rodrigues), estrutura (mal temos 6 bolas boas, materiais como cones, pratinhos e coletes que utilizamos foram emprestados a mim pelo antigo treinador Marcos Carvalho, e outros materiais como barreiras, elásticos  e estacas estão em condições precárias) e em relação a disponibilidade dos atletas para treinos, estamos nos virando como nos podemos.

Penso que não devemos arrumar desculpas, e sim soluções para os nossos diversos problemas, e assim eu levo minha vida pessoal e a vida como treinador à frente da equipe, e graças a Deus eu, minha comissão técnica e meus atletas vêm sendo muito honrados por isso, pois o trabalho vem sendo bem feito e Deus não deixou com que faltasse nada em momento algum para nós. Planejamos os treinos conforme nossas demandas e necessidades físicas, táticas e técnicas. Como o espaço, a falta de tempo e de iluminação (no caso dos treinos à noite) não permitem trabalhar com perfeição as demandas táticas, priorizamos a parte física e técnica da equipe para ser o diferencial e nosso trunfo durante os jogos. As demandas táticas tento corrigir nos raros treinos em que todo o grupo está junto, mas acabo tendo que fazê-la principalmente em dia de jogos, antes, durante e depois das partidas. Bom, até agora vem dando certo, nos viramos como podemos!

Os dois jogos com a Upis, uma das equipes universitárias mais destacadas do Brasil no futebol, foram uma amostra do que a UnB enfrentará no Brasileiro. Como foram esses jogos e que lições trouxeram?

Os dois jogos contra a UPIS foram importantíssimos para o nosso trabalho e foram o divisor de águas para a equipe e principalmente para mim. Apesar do bom trabalho realizado por nós durante os 2 meses antes dos confrontos contra a UPIS, não tínhamos parâmetros suficientes para saber se estávamos andando pelo caminho certo ou não. Além disso o grupo de atletas vinha com a autoestima baixa devido a grande sequência de revés não só contra a UPIS, mas também contra as outras equipes, e precisava de uma injeção de ânimo para mudar esse quadro.

Empatamos a primeira partida com eles em 1 a 1, em um jogo em que jogávamos bem e vencíamos até os 35 minutos da segunda etapa, mesmo com a grande quantidade de desfalques. Esse jogo mostrou a toda a equipe que tínhamos condições de jogar de igual para igual não só com a UPIS, mas também com qualquer equipe que enfrentássemos, mostrou a comissão técnica que todo o trabalho realizado até então estava gerando efeitos positivos e que estávamos andando pelo caminho certo, e me gerou uma autoconfiança imensa na posição de treinador da equipe, algo que me motivou ainda mais a seguir trabalhando e estudando muito para oferecer o meu melhor serviço para a equipe, visto que a UPIS é a atual campeã brasileira universitária e vice-campeã sul-americana.

Como consequência, fizemos novamente uma excelente partida contra a UPIS no segundo jogo das seletivas, numa partida onde os mesmos foram com força máxima (uma equipe repleta de profissionais) e mesmo assim perdíamos até os 44 minutos do segundo tempo pela pequena diferença de 1 a 0, em um gol mal assinalado pela arbitragem. O final da partida foi 3 a 0 para a UPIS, um placar que não revela o que foi verdadeiramente o jogo, mas que nos deu mais ânimo para seguir trabalhando sério e buscando o melhor para equipe.

Por fim, o que pode nos dizer sobre a equipe que levará o nome da UnB para Tocantins? Quem são os atletas, a equipe-base, o esquema tático? Você tem alguma expectativa para essa competição?

O que posso dizer da equipe que levará o nome da UnB para o Brasileiro Universitário é que um grupo forte, unido e bem treinado. Com excelentes peças individuais tanto dentro como fora de campo. Os 20 atletas que irão representar a equipe são atletas completamente capacitados a realizarem a melhor campanha já feita pela UnB na história, basta colocarem em prática tudo que treinaram e tudo que viveram ao longo desses 3 últimos meses. O grupo é formado por Wendell Souza, Kassyo Soares, Diego Nascimento, Matheus Gouveia, Danilo Borges, João Vitor, Pedro Victor, Charles Abreu, Mateus Silva, Yago Bucher, Matheus Felipe, Kaihan Lima, Eduardo Nilber, Ruan Henrique, Vinicius Godoy, Marcos Vinícius Euzébio, Henrique Rocha, Douglas Vasco, Gabriel Campos e Matheus Abreu.

Com relação a equipe base e esquema tático eu prefiro não falar muito, quero que os adversários tratem de ver e estudar a forma como nós jogamos se quiserem nos superar, vamos deixar isso em segredo. Assim como tudo que faço na vida, tenho as melhores expectativas possíveis para a competição. Com pés nos chão, minha meta inicial é ao menos igualar a melhor campanha da UnB na história, que foi chegar às quartas-de-finais no ano de 2013. Mas pelo que conheço de futebol e pela preparação que fizemos, tenho consciência de que se chegarmos a final não será surpresa alguma, devido a qualidade técnica, tática e física de todos os meus atletas. Para alcançar esse objetivo temos que pensar um jogo por vez, não adianta pensar na final sem nem sequer ter jogado a primeira partida, então nessa filosofia vamos trabalhando. A primeira meta é vencer a equipe do UNIVERSO-GO na estreia do torneio e após essa partida eu penso e foco no resto. Vamos em frente!